Matéria Especial: IFRS - VANTAGEM PARA O BRASIL, DESAFIO PARA A CONTABILIDADE



27/06/2013


Matéria Especial do Jornal Contábil Edição Impressa

O Brasil, em 2011, tem a previsão de crescer 4%, de acordo com informações do Banco Mundial. A instituição financeira elaborou um relatório sobre “Perspectivas Econômicas Globais” e um dos destaques é a afirmação que os países da América Latina, com especial atenção ao Brasil, saíram da crise econômica, iniciada em meados de 2008, e que ainda abala países da Europa e os Estados Unidos.


Os dados positivos não param por aí. Em 2010, nosso país apresentou o melhor desempenho dos últimos 25 anos, com um crescimento na faixa dos 8%. O capital fixo, que representa investimentos em construção civil, máquinas e equipamentos, cresceu 20,2%. Com uma economia em franco desenvolvimento, os olhos do mundo voltados para as oportunidades de negócios e o mercado em expansão, o Brasil não poderia deixar de dar um passo à frente também na contabilidade.


A Lei nº 11.638, promulgada em 28 de dezembro de 2007, causou uma espécie de revolução na profissão de contabilista, por adotar para o Brasil, as Normas Internacionais de Contabilidade (IFRS). Depois de sete anos tramitando no Congresso Nacional, o novo código chegou para modificar a Lei nº 6.404/1976, conhecida como Lei das S.A. (Sociedade por Ações) e determina que as demonstrações contábeis de todas as empresas, a partir desse momento, devem ser feitas com base nas IFRS.


Países da União Europeia, a China, Rússia, Hong Kong, África do Sul e Austrália já aderiram a esse modelo. Atualmente, as IFRS são as mais aceitas no mundo. Até mesmo os Estados Unidos, que têm como norma as US Gaap (United States Generally Accepted Accounting Principles – Normas Contábeis dos Estados Unidos), entende as IFRS como um padrão na área da contabilidade. A adoção dessas normas internacionais alinha o Brasil com os mercados mais importantes do planeta, pois trazem em seu bojo os critérios de comparabilidade e a transparência que as empresas globalizadas exigem para aderir aos negócios.


Do mesmo modo, outra tecnologia vem gerando interesse do Conselho Federal de Contabilidade, o (CFC) e do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). É o XBRL (Extensible Business Reporting Language – Padrão Internacional para Demonstrações Contábeis) que produz informações que podem ser reutilizadas em qualquer lugar do mundo. Esforços já estão sendo desenvolvidos para implantá-lo no Brasil.


Porém, assim que a Lei nº 11.638/2007 foi divulgada, os profissionais da área passaram a questionar a validade de se adotar um padrão contábil que praticamente obrigaria os contabilistas a “começar tudo de novo”. Segundo Domingos Orestes Chiomento, presidente do CRC-SP (Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo), com as IFRS, a contabilidade brasileira ascende a um novo patamar e impele os profissionais a um novo ciclo de conhecimentos. Até mesmo as instituições de ensino devem começar a repensar e atualizar o currículo do curso de Ciências Contábeis. “Embora haja percalços, o Brasil jamais poderia deixar de oferecer, para as empresas que queiram investir no mercado nacional, a melhoria na qualidade das informações proporcionadas pelas IFRS. Uma comunicação financeira uniforme atrai os negociadores, pois oferece confiabilidade, consistência e segurança” argumenta.


A internacionalização dessa linguagem é tão importante, que também a área pública passará a adotar as IFRS em 2012, para as demonstrações contábeis da União e dos Estados, e em 2013 para os municípios. A adesão do Brasil às normas internacionais destaca o papel dos profissionais da contabilidade brasileira, fortalece e chancela a importância do CFC e da sua participação no Comitê de Pronunciamentos Contábeis. “As IFRS trouxeram um novo alento para a área contábil, modernizando e realçando para os empresários, para os governos e a sociedade, o quanto é essencial, inovador e necessária a participação dos profissionais da contabilidade para o país. Sabe-se que talvez não seja fácil assimilar tantos conceitos novos, mas os contabilistas já deram inúmeros exemplos de adaptação a exigências legais que se modificam quase que diariamente. Além disso, o Sistema CFC/CRCs tem contribuído para a divulgação desses novos conceitos, organizando inúmeras atividades, como palestras, seminários e intervenções na mídia. Um trabalho com as instituições de ensino vem sendo feito também para que os currículos levem em conta a nova realidade da profissão” conclui.


Na visão de Chiomento, as organizações devem investir em treinamento de sua equipe. A preparação técnica dos profissionais, para o processo de adaptação das IFRS e das IPSAS (International Public Sector Accounting Standards - Norma Internacional de Contabilidade para o Setor Público), é o principal desafio do cenário contábil atualmente. As novas normas contábeis passaram a ser obrigatórias este ano para as empresas brasileiras. Em 2012, é a vez dos governantes das três esferas se adaptarem aos novos padrões da contabilidade pública.


Chiomento acredita que as organizações devem “reter seus talentos frente a um grande assédio na área, uma vez que o valor dos salários aumentou e a competitividade é grande”, explica, salientando que o contabilista atual deve estar preparado para uma rotina de trabalho cada vez mais exigente e complexa. “É importante salientar que onde há desafios, há maiores oportunidades. A área contábil está aproveitando muito bem esse cenário para ganhar mais espaço e valorização a nível nacional”, afirma o presidente. 
Segundo Chiomento, o novo modelo de contabilidade requer produtividade imediata e rigorosa qualidade. “Os contabilistas que já estão no mercado de trabalho, bem como os estudantes, tanto do curso técnico, quanto das faculdades, devem ter em mente que a evolução dos marcos legais e a modernização da profissão, ajudam na expansão dos negócios. A sociedade está cada vez mais exigente e com a comunicação cada vez mais integrada e globalizada, a pressão vivenciada pelas empresas é grande, e logo, isso será repassado aos profissionais”.


O cenário macroeconômico, o maior interesse de investidores estrangeiros no país, o crescimento das exportações e a busca das empresas pelo novo mercado, são alguns dos fatores que influenciam essa mudança. Na opinião de Chiomento, os contabilistas precisam estar dispostos às mudanças, principalmente os funcionários antigos. “Profissionais inflexíveis inevitavelmente acabam sendo deixados para trás. Essa mudança está muito mais relacionada a hábitos e costumes”, finaliza.
 
Oportunidades para mudanças

Anderson Thomaz, que é arquiteto de soluções de uma empresa provedora de serviços de TI (Tecnologia da Informação), nos diz que frequentemente, os órgãos reguladores determinam normas comuns para as instituições financeiras, que as analisam, especificam e direcionam a área de TI, responsável por implementá-las. Para ele, as IFRS não devem ser encaradas apenas como mais uma norma dentre tantas outras, e sim como um novo padrão contábil. Não serão feitas apenas mudanças no layout de dados ou definidos relatórios para serem apresentados. Na prática, serão efetuadas mudanças em um processo contínuo, que é submetido a todas as áreas das instituições financeiras. As mudanças atingirão as formas de avaliar os instrumentos, tratarão as perdas e contingências, demonstrarão os relacionamentos com outras instituições e com os próprios colaboradores, evidenciando todo o processo da contabilidade.


Ao longo do tempo, diante de tantas normas vindas dos órgãos reguladores, as áreas de TI das instituições financeiras foram obrigadas a se remodelar, tornando possível que, no final do processo, todas as obrigações legais fossem atendidas. “Desta forma, criou-se um ambiente tão heterogêneo e complexo, que dificultou a identificação do começo e do término de um determinado processo. Por meio do IFRS, não é possível apenas reunir os dados para a geração de relatórios, pois é preciso repensar alguns processos. É onde podemos identificar as novas oportunidades” afirma Thomaz.

Maior desafio para adaptação dos IFRS e IPSAS é a preparação técnica dos profissionais.

A maioria dos sistemas voltados para os instrumentos financeiros está ligada a lançamentos contábeis. Sendo assim, o resultado final dessas arquiteturas é transmitido para o sistema de contabilidade, por meio dos saldos de contas. Porém, Anderson faz questionamentos importantes. “Como é possível gerar o cálculo de custo amortizado, da taxa efetiva e do valor justo com o nível de detalhamento exigido pelo IFRS, se o que se recebe ultimamente são apenas saldos em contas contábeis? Qual gestor de TI nunca teve problemas com sistemas que apresentam cálculos ou lançamentos incorretos, que nunca puderam ser efetivamente corrigidos ou substituídos, devido à falta de orçamento, tempo ou mesmo recursos humanos?”.


Mesmo diante dessas dúvidas, ele ainda acredita que é possível encontrar oportunidades a partir do IFRS. “Este é o momento para discutir com as demais áreas envolvidas uma estratégia eficiente e capaz de atender ao órgão regulador e, além disso, reestruturar uma área vital das instituições, que muitas vezes tem processos e sistemas fragmentados, criados apenas para resolver problemas de outros sistemas” assegura. 
Nesse caso, outra questão importante deve ser avaliada. Como discutir a redução do valor recuperável de ativos (impairment) sem ter o controle total sobre a garantia atrelada ao contrato? Thomaz nos diz que este pode parecer um desafio, mas é a oportunidade para iniciar uma discussão sobre o redesenho de um processo existente, para uma forma simplificada. Outro ponto é a contabilidade por si só. Quase todas as obrigações impostas pelo IFRS têm a sua evidenciação na contabilidade. Porém, para efeito de fisco, teremos uma contabilidade nos padrões atuais e outra no formato IFRS.


Mas será que a estrutura contábil das instituições está pronta para este novo modelo? Quem nunca pensou em ter uma contabilidade “multibalanço”, capaz de conciliar de forma automática a contabilidade gerencial com a contabilidade financeira? “Ao invés de criarmos ajustes sob ajustes para atendermos a um único ponto, as obrigações oriundas do IFRS geram, sim, a oportunidade de rever grandes processos e ajustar itens fragmentados ao longo do tempo” finaliza.


Por fim, há uma série de relatórios gerados por meio das obrigações do IFRS e, consequentemente, uma extensa variedade de dados gerados, o que torna quase impossível não pensar em uma plataforma de Inteligência de Negócios (BI), capaz de potencializar o uso de todas estas informações para as instituições financeiras. Quem tem o domínio da informação não apenas está à frente da concorrência, como tem a agilidade para reagir às oscilações do mercado.


É claro que existem outras oportunidades a serem discutidas e que também não são simples ou de fácil mensuração de retorno. Como estas mudanças são definitivas, certamente as instituições financeiras terão que rever seus processos, seja neste momento, para a adoção do IFRS, ou em breve, para a correção de caminhos adotados pela interpretação incorreta das mesmas. Essa é uma discussão que deve acontecer em todas as instituições financeiras.

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